O que vemos com frequência é o uso da interpretação bíblica para legitimar convicções que já estavam estabelecidas antes mesmo de o texto ser examinado. Espera-se que a exegese seja justamente o exercício de se debruçar sobre o texto para compreender o que ele comunica em seu contexto. Mas o que acontece quando, em vez de permitirmos que o texto nos questione, fazemos com que ele diga aquilo que queremos ouvir?
A tradução nunca é um exercício completamente desprovido de escolhas, neutro, como muitos querem defender tal neutralidade. As palavras carregam histórias, sentidos e possibilidades. Por isso, precisamos estar atentos às escolhas que fazemos e, sobretudo, à maneira como as utilizamos para sustentar nossas convicções. “Traduttore, traditore”
Vivemos na era da idolatria do ego e da pseudo-intelectualidade. Uma época em que o conhecimento, muitas vezes, deixa de ser instrumento de investigação e se transforma em ferramenta de poder. Impomos nossas verdades, apresentadas como dogmas inquestionáveis, sem perceber que muitas das nossas certezas também foram moldadas por estruturas históricas, políticas e culturais. Herdamos determinadas interpretações, esquecemos de questioná-las e, não raro, reproduzimos a violência daqueles que um dia nos oprimiram.
De perseguidos, tornamo-nos perseguidores.
Mas a verdade se fez carne, e habitou entre nós. A verdade que, na fé cristã, se revelou em uma pessoa, Jesus de Nazaré.
Ele se apresentou como caminho para o Eterno e convidou pessoas a caminhar com ele. Não ofereceu apenas um conjunto de regras e conceitos a serem dominados intelectualmente, mas uma vida a ser compartilhada, uma relação a ser construída, um caminho a ser percorrido. Prometeu que continuaria com eles pelo caminho, ao lado, e agora dentro.
A verdade não se impôs se revelou.
É nesse contexto que me inquieta a maneira como determinados discursos teológicos interpretam Jeremias 17:9: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas”.
Muitas vezes, esse texto é utilizado para ensinar que não devemos confiar em nossos sentimentos, como se o coração fosse apenas o lugar das emoções e a razão fosse um instrumento necessariamente mais confiável. Mas essa leitura ignora a complexidade do pensamento hebraico.
A palavra hebraica lēb (לֵב), (Dicionário STRONG 3820) tradicionalmente traduzida como “coração”, pode abranger também a mente, o entendimento, o pensamento, a vontade e a dimensão moral do ser humano. Não corresponde, portanto, à separação moderna que costuma colocar a razão de um lado e as emoções de outro.
Por que, então, insistimos em leituras que desconfiam tanto da sensibilidade, mas parecem depositar uma confiança quase ilimitada na racionalidade?
O próprio texto bíblico não nos autoriza a tratar a razão como território imune ao engano. Pensamos, interpretamos, construímos argumentos e justificamos nossas escolhas. E também podemos usar tudo isso para alimentar nosso orgulho, proteger nossos interesses e legitimar aquilo em que já decidimos acreditar.
Talvez o problema não esteja em pensar ou sentir, mas em transformar qualquer uma dessas dimensões em autoridade absoluta.
É aqui que questiono a pseudo-intelectualidade, a pretensão de compreender Deus em sua totalidade por meio de nossos próprios recursos intelectuais. Um deus que cabe inteiramente nos limites dos nossos conceitos talvez seja apenas a imagem que construímos de nós mesmos.
O Deus que acredito transcende o racional, cria a partir do nada, se esvazia e se torna criança, o Eterno que se coloca na finitude, adentra a realidade que ele mesmo criou. O Deus que creio resolveu habitar hoje dentro de seres finitos, escolheu se relacionar com a sua criatura e ao mesmo tempo está na eternidade, no seu Reino.
Não nego a razão. Questiono sua idolatria.
Também não proponho abandonar o conhecimento, mas reconhecer seus limites. Há coisas que precisamos estudar, outras que precisamos investigar e algumas diante das quais precisamos aprender a permanecer em silêncio.
Porque Deus também nos alcança pela sensibilidade.
Podemos ser tocados diante de um pôr do sol, na contemplação de uma planta, no encontro com um animal, ao ouvir uma música ou diante de uma obra de arte. Não porque toda experiência estética seja necessariamente uma revelação divina, mas porque a beleza pode nos tornar mais atentos, receptivos e conscientes daquilo que ultrapassa nossa necessidade de controlar e explicar tudo.
Há dimensões da existência que ainda não compreendemos plenamente. Isso não significa que sejam irracionais ou que estejam fora de qualquer possibilidade de reflexão. Significa apenas que não devemos confundir aquilo que conseguimos explicar com tudo aquilo que existe.
Precisamos reaprender a pensar sem deixar de sentir, estudar sem perder a capacidade de contemplar e interpretar sem a pretensão de esgotar o mistério.
Não porque a razão seja inimiga da fé, mas porque também ela pode ser corrompida pelo ego, pelos interesses e pela necessidade de poder. Não existe neutralidade na interpretação.
A questão, portanto, não é escolher entre coração e mente, emoção e razão. É reconhecer que nenhum deles, isoladamente, nos torna donos da verdade. Perceber nossa integralidade.
Perceber que a maturidade espiritual comece quando deixamos de querer dominar o mistério e aprendemos a nos relacionar com ele.
“Enganosa é a razão, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupta.” (Tradução livre)
